FICA



   Não quero dizer, essas palavras não devem ecoar pelo cômodo. Mas ao mesmo tempo, neste momento, não se deve restar duvidas. Respiro fundo, as malas já estão na portaria e o táxi chegou há 15 minutos. Tomo coragem para falar entre o som do interfone avisando a impaciência do motorista. Já está tarde. Já é tarde demais, não é? Não há mais nada a ser dito, e ao mesmo tempo, o silencio causa danos irreversíveis. Observo-o pegar as chaves, o barulho soa lentamente por mim. Vai levar as chaves. Ele vai voltar? É algum tipo de sinal? Caminha até a cômoda percebendo o movimento automático e larga as chaves lá. Pegou o celular, ajeitou a mochila nas costas e me encarou.  Ele não vai mais voltar.

“Você quer mesmo partir?”

  Não é apenas ir embora do local. Partir tudo o que construímos, todas as coisas materiais e amigos. Partir meu coração.
Eu quero tanto que fique, mesmo sabendo que não há mais nada entre nós além do silencio dos cômodos vazios, testemunhas do quão errado somos juntos. Mesmo assim, quero que fique. Fique hoje, amanhã e quando o “ficar” não for mais opção. Ficar do meu lado, até mesmo de costas, emburrado. Ficar chateado com o modo que nada parece se encaixar, e ao mesmo tempo, ficar pasmo do quão profundo consegue me amar mesmo assim. Mesmo com as minhas loucuras que colocam em questionamento este sentimento. Quero que fique porque ainda me ama, ou apenas fique para se lembrar de como era me amar. Ficar mesmo sem entender nada, olhar para mim e entender tudo. Eu quero perdidamente que fique, sem desculpas, sem magoas passadas, sem enrolação. Apenas pare de andar para longe enquanto minhas quatro palavras ecoam, ignorando o meu questionamento. Ignorando quão difícil é partir. Fique para me impedir de correr, lembrar-me do quão fácil as coisas ficam quando nos entrelaçamos na cama. 

   A porta bate atrás de mim, um som tão alto que meu coração pula. O que você faz quando perde alguém importante? O que vem depois? Viro-me para observar o cômodo escuro que me encontro.  E lá está ele. Entre a escuridão, encarando-me pensativo.

“Você quer mesmo partir?”

Tráfico Da Mi

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