É SOBRE TER VIVIDO DIFERENTE
Ele chega todas as
noites em silencio. E quando não estou, até grita o meu nome com tom de preocupação.
Queria que estivesse preocupado mesmo, mas é apenas o comodismo da minha
presença. É sobre chegar em casa e ter alguém lá. Já não é mais sobre chegar em
casa rápido para me encontrar. Quando estou, atravessa os cômodos irritado, espalhando
suas feridas abertas da briga anterior e o estresse do dia-a-dia. Antigamente, quando as crianças eram pequenas e iam dormir cedo, tinha o velho costume
de me contar como foi seu longo dia enquanto jantava. É sobre sentir falta das
lembranças mais simples. É sobre perder o que achava que nunca era possível. Agora
as palavras que saem da sua boca me ferem, até quando está em silencio. E todas
as palavras que saem da minha, o ferem. Não dançamos mais conforme a musica, já não escutamos mais.
Eu deveria ter me separado em 2000.
Deveria ter seguido os conselhos de todos ao meu redor, abrindo mão do que já
não era mais meu. Talvez, a minha caçula não amadurecesse tão rápido, não
agiria por aí como se aguentasse qualquer barra só porquê aguentou á do meu
casamento. Talvez, a minha filha do meio falasse mais comigo, não me olharia
com indiferença e não seria tão fechada para o mundo. E o meu filho mais velho me visita-se com mais frequência. Se eu tivesse sido mais corajosa
e não temesse a solidão, os meus filhos hoje veriam o que é essencial. É
sobre ter tirado deles a fé do amor, de ter um relacionamento saudável e
prospero. É sobre eu não ter me amado o bastante. Este texto é sobre o meu karma.
Ele não me olha como antes, não me vê a
anos. Dorme ao meu lado, mas não está ao meu lado. É sobre todos “e se” que me
rondam diariamente. É sobre sentir que estou na história errada. É sobre ter
esquecido o quanto o amei. É sobre enlouquecer. Eu falo sobre o quanto o apego e a rotina podem nos confundir, fazendo-nos parar no tempo. É desejar noites de sono melhores,
sobre não chorar no telefone com a minha comadre. É sobre sentir falta de ser
amada e amá-lo. E desejar envelhecer tendo paz no coração. É olhar para o
lado e ver que tenho alguém que passou a vida inteira comigo e me fez feliz. É desejar fazer um cruzeiro de idosos, dançar na praia e mostrar as fotos dos meus futuros netos a qualquer pessoa que se dispor a ver. É sobre
confundir esses desejos com a minha realidade, e mascara-la todos os dias. É não
poder abrir mão. E nenhum dos dois irá pular do barco, mesmo que as crianças já
tenham. Nós continuamos ali, olhando um para o outro enquanto afundamos, sem se
ver. E sem se salvar. Todos vivem afogados em palavras não ditas e em palavras
ditas sem pensar. E alguns, vivem boiando sobre a superfície, apoiados em
memorias do que um dia foram juntos quando eram mar. E sabiam amar.
Milena Oliveira /
Tráfico de Conselhos


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